Better Call Saul: Impressões sobre a conclusão do spin-off de Breaking Bad

29 de agosto de 2022 Off Por admin

“Better Call Saul” chega ao seu fim como um profundo estudo de personagem que, embora trágico, vislumbra alguma redenção.

Por Bruno Flores | Colaborador

Em uma cena de “Saul Gone”, episódio final da série “Better Call Saul”, o protagonista está num ônibus com outros detentos. Segue para uma penitenciária federal. No caminho, aos poucos, os criminosos o reconhecem. Assim, começam a cantar, em uníssono, o título da série e slogan profissional do advogado mais trambiqueiro de Albuquerque: “Better Call Saul”. Peter Gould, co-criador da série, falou sobre esta cena para a revista Variety. “Mesmo que ele tenha se tornado Jimmy McGill de novo em sua própria mente, para o mundo exterior, ele sempre será Saul Goodman. Para sempre. Até o dia em que ele morrer, para o mundo ele será Saul Goodman”.

As personas de Jimmy McGill

As personas que criamos para nós mesmos, seja para justificar intenções escusas ou passar a imagem do que gostaríamos de ser, é um tema que permeou as jornadas de Walter White e Jimmy McGill. Para ambos, estes motivos caminharam de mãos dadas em arcos de corrupção moral e escalada de poder. Eles têm o impulso de não apenas transgredir a lei. Querem testar os limites da convivência ao colocarem seus desejos acima dos direitos alheios. Passam como tratores por cima de quem representa algum empecilho, em buscas autenticamente egoístas. São antiheróis por excelência.

Walter White foi de um frustrado e inseguro professor de química de colégio, que fazia bico como funcionário de lava-jato para incrementar a renda da família, para barão milionário da metanfetamina, arquiteto de assassinatos e conspirações internacionais, sob o codinome Heisenberg.

Já Jimmy McGill acumulou ainda mais personas, embora sua transição tenha sido mais gradual e menos disruptiva. Começou como o jovem golpista e fanfarrão Slippin Jimmy. Dava pequenos, mas elaborados, golpes em grã-finos junto com seu amigo de bairro. Assim, passou a ser Jimmy McGill, advogado malandro, porém esforçado, que vivia à sombra do brilhante irmão mais velho, mas nunca conseguia respeito suficiente para galgar algum sucesso.

Depois Saul Goodman, o inescrupuloso advogado de porta de cadeia que usa a carteira da Ordem como arma de fogo. Até, por último, Gene Takovic, uma necessidade e não uma escolha, uma existência em total isolamento quando “Saul” dá um passo maior do que a perna. Cada nova persona representa uma evolução que, paradoxalmente, enquanto lhe dá poder, fama e dinheiro, também o aproxima um pouco mais do abismo.

Urgências de Walter White

No caso de Walter, destinado a morrer de câncer num futuro próximo, o senso de urgência era primordial. Contudo, o argumento de que entrara naquele ramo para deixar dinheiro à família antes de morrer se esfumaça no episódio final, na última conversa com a esposa, Skylar. Só então, já um criminoso foragido e atormentado por seus próprios demônios, ele confessa: “Fiz tudo por mim”. É o primeiro e único momento em que Walter é honesto consigo mesmo.

Em “Saul Gone”, há um espelhamento dessa epifania, quando Jimmy está diante da juíza na audiência de homologação do acordo com a promotoria. Ele havia milagrosamente conseguido reduzir seu acordo de sentença para sete anos de reclusão e, de forma consciente, bota tudo abaixo ao confessar os crimes que cometeu a serviço de Walter White. Kim está presente (algo planejado por Jimmy), e a todo momento ele olha para sua outrora parceira de cama e artimanha, medindo suas reações. O sacrifício pessoal é feito para ela.

Better Call Saul. Foto: AMC/Divulgação

O Efeito Kim Wexler

Ao longo das seis temporadas, Jimmy sempre buscou a aprovação de Kim, e muitas de suas atitudes nesse sentido mudaram a direção da trama. Na temporada 04, um flashback revela Jimmy ainda bem jovem atuando como entregador de correspondências no HHM. Um trabalho que ele faz com sorriso no rosto, pois nunca lhe ocorreu algo mais ambicioso. Aquela foi a saída que encontrou, com a ajuda do irmão, para deixar a vida de golpista.

Nesta mesma cena, Kim conversa com ele e mostra toda sua admiração pela advocacia. De modo especial, pela figura de Charles McGill, irmão de Jimmy, sócio-fundador do HHM. Jimmy a ouve com total atenção, e seu semblante muda. Em seguida, o vemos entrando na biblioteca do escritório, sugerindo que ali nasceu seu desejo de tornar-se advogado. As palavras de Kim plantaram essa semente.

Na temporada 02, quando ele forja um erro do seu irmão Chuck na documentação do banco Mesa Verde, sua intenção é que o cliente rompa o contrato com HHM e Kim seja contratada no lugar. E dá certo. Kim, quando descobre a trapaça, não compactua com o crime de Jimmy, mas tampouca o condena ou denuncia. Possivelmente é este o ponto de virada que dá início à sua transição de advogada correta e justa, para chafurdar na lama dos golpes e fraudes com o parceiro, o que culmina no destino trágico de Howard Hamlin.

A confissão de Jimmy para a juíza em “Saul Gone”, que praticamente o condena a passar o resto da vida preso, é prova de que essa busca pela aprovação, respeito e, consequentemente, o amor de Kim, norteia muitas ações do protagonista até o fim, para o bem ou para o mal, superando até mesmo seu instinto de sobrevivência.

Ações e consequências

Jimmy habituou-se a trapacear seu caminho pela vida. Usou sua habilidade retórica, malandragem e inegável talento para manipular pessoas e situações, desde roubando trocados da caixa registradora do pai na infância, até ajudando Walter White a erguer seu império de metanfetamina. Após a morte de Chuck, Kim Wexler foi a única pessoa que o manteve ancorado a algum senso de moralidade. Não à toa, quando ela o abandona por não suportar o peso da culpa pela morte de Howard, essa é a virada de chave definitiva para a transformação de Jimmy no seu alter-ego Saul Goodman. Kim não estava mais lá para protegê-lo de si mesmo. Portanto, nada mais coerente que ela seja, também, a pessoa que o traz de volta à origem e o leva, finalmente, a aceitar as consequências de seus atos, inclusive sua responsabilidade na morte do irmão, o que Jimmy confessa na audiência.

A penúltima cena de “Saul Gone” talvez seja uma das mais poéticas e contemplativas da série, numa referência direta ao episódio-piloto. Kim e Jimmy dividem um cigarro numa sala encardida do presídio, como faziam no estacionamento do HHM quando Kim era uma advogada munida de sonhos e ambições, e Jimmy um pé-rapado alugando como escritório um muquifo nos fundos de um salão de beleza. Agora ela, querendo escapar ao próprio passado, anulou-se numa existência solitária e apagada como funcionária de uma firma de irrigadores na Flórida, enquanto ele acaba de ser condenado a 86 anos de prisão.

Máquina do tempo

Quantos caminhos errados foram tomados neste percurso? Quando arrependimentos se escondem ali? Embora este seja o tema central do episódio – usando como metáfora a máquina do tempo –, nada disso é falado em cena, como havia sido com Mike e Walter; e nem precisa. Jimmy e Kim não são mais os mesmos, mas se conhecem melhor do que nunca. Apenas tragam aquela nicotina como se fosse a única coisa que ainda pudessem compartilhar, afirmando que ali ainda resta uma cumplicidade e, quem sabe, um resquício de amor que ambos sabem impossível.

“Better Call Saul” chega ao seu fim como um profundo estudo de personagem que, embora trágico, vislumbra alguma redenção. A desoladora cena final promete grudar na mente do espectador que há 125 episódios acompanha esse brilhante universo criado por Vince Gilligan e Peter Gould. A fotografia em preto-e-branco da narrativa pós-Breaking Bad sugere uma homenagem aos filmes clássicos da Era de Ouro de Hollywood que Jimmy e Kim assistiam, entre goles de vinho, no sofá da casa dela. De certa forma, eles também foram espectadores, e não donos, do próprio destino. Como disse Chuck, em vão, para o protagonista: “Se você não gosta do rumo que tomou, não há vergonha em voltar atrás e escolher outro caminho”.